Anteriormente, em Testamenta...

Carregando...

sábado, 20 de março de 2010

Mundo Cão! zinho...

Saltei do ônibus de manhã na praia de Copacabana. Era cedo, havia pouca gente no calçadão bem como na praia. Manhã preguiçosa de março, fim de verão, um calor esquento-não-esquento, meio chovo-não-molho, luz laranja à farta para fotógrafos e seus nasceres de sol (não sei se existe isso, mas não ficou ruim...). Incrível como, dependendo do horário, há cidades que não se reconhecem nelas mesmas em outros momentos do dia. Se aquilo era a praia de Copacabana do trânsito intenso, das prostitutas noturnas, as famosas e desusadas mariposas, dos quase extintos pequineses, dos corredores, da guarda municipal motorizada, dos turistas, dos milhões de turistas, então não sei mais quantas Copacabanas há, nem em qual estava. Atravessei as pistas vazias e, já do outro lado, vi o que me fez não me importar mais com que Copacabana eu poderia estar. Na verdade, não me importei com mais nada naquele dia e acho que não pretendo mais me importar com muita coisa... Um mendigo conhecido aqui do quarteirão - também há a Copacabana dos mendigos, só deles - brincava com o seu cachorro, também conhecidíssimo na vizinhança. O nome do mendigo? Não sei, talvez seja Gilson, já ouvi algo assim. O do cachorro? John! E por que eu me lembro mais do nome do cachorro que o do mendigo? Não sei, ou sei e não me orgulho nem um pouco disso... O fato é que o Gilson - vamos chamá-lo de Gilson mas sem desmerecimento ou desimportância com o nome da pessoa, pelo contrário!, o homem tem nome, não se chama mendigo - estava brincando com John. Chamava o cachorro pra subir no banco e abraçava-o. Depois, como se estivesse treinando o bicho, batia no peito e o John ali se apoiava com as patas dianteiras e recebia um carinho sincero e um sentimento poucas vezes visto, em mendigos ou gente rica. Em gente, em geral... Parei para ver a cena, mas parei de longe, não queria atrapalhar. Não tinha o direito de atrapalhar um momento de espontaneidade que já não se vê pela cidade há algum tempo. Lembrei-me de Carlitos. Engraçado como a cultura geral, que alguns vão chamar de erudita, serviu apenas como uma referência leve, singela, da própria vida. É, existem Carlitos... E lá estava o vagabundo e seu vira-latas, de coleira! e de nome chique numa alegria que, com a maior das sinceridades, não é conversa de cronista metido a prosador poético, eu acho que nunca vi. Mesmo! Ou, se vi, vi tão poucas vezes que o resto dos anos e do mundo fez o favor de estraçalhar. Naquele momento questionei muito muitas coisas, e não consegui fugir do senso filosófico comum dessas horas: então, a felicidade é isso? Ora, ter um teto, roupas, comida três vezes ao dia, um salário e uma família não é também a felicidade? Ou é uma ilusão de felicidade? Reconheço: podemos ter o mesmo amor de um cachorro em nosso apartamento ou em nossa casa de praia em Angra, é verdade. Mas será que conseguiríamos ter esse mesmo amor se não estivéssemos escorados pelo teto, pelo salário no fim do mês, pela casa de praia em Angra e pelo seguro do carro? Que felicidade é essa, Seu Gilson? Me explica, por favor! Que felicidade é essa, tão autêntica, tão simples, tão plena de abraçar um vira-latas sem ter o que comer nem onde dormir nem o que vestir nem em que trabalhar nem ter saúde ?!!! Eu aqui, hipertenso, tenso com meu doutorado em literatura comparada, com minha síndrome metabólica indo e vindo e você aí, Seu Gilson, sorrindo sinceramente por poder abraçar um cachorro e receber o seu amor desinteressado! Como é que se faz isso? Só pode ser a bebida, Seu Gilson, só pode ser afastado da consciência da própria realidade que lhe assalta essa tal felicidade. Sem dignidade, sem um teto, sem um banheiro... Vocês, nós, já se imaginaram sem um banheiro? E sem água? E sem geladeira? E sem cama?! E Seu Gilson lá, sorrindo, alegre, feliz; e com ele, igualmente feliz, John, um vira-latas de coleira, dono e nome, comendo do bom e do melhor, oferecido pela vizinhança. Já Seu Gilson, que sofre com o pecado original de ser apenas gente, que se vire pra arranjar comida. "Todo mundo traz comida pro John, ninguém traz pra mim", já se ouviu ele falar por aí. À noite, os dois dormem juntos, quase abraçados, um velando pelo outro. Amor fraterno é isso. Amor, em uma de suas formas mais elevadas, é isso. E nós preocupados com nossas contas e com o preço da gasolina e com a fofoca dos vizinhos e com a nota no colégio e com o título de doutor e com os remédios mas não com o pôr-do-sol. Olhai os lírios do vale? Franciscanismo? Irresponsabilidade? Preguiça? Quem liga? Assim é se lhe parece. Para o John, significa apenas felicidade.
Hoje fiquei sabendo que o Gilson está preocupado: o Choque de Ordem da prefeitura já mandou avisar que vai tirar os mendigos de Copacabana e, pra onde eles vão, o John não pode ir... Gilson vem pedindo aos moradores mais próximos ajuda, não em dinheiro, não em comida, nem sequer para ele!, mas para que alguém acolha o John. Se um vai sobreviver sem o outro, não sei, talvez não, mas Copacabana, segundo a prefeitura, precisa passar pela maquiagem social. Talvez você não tenha lido esse texto que tenho a petulância de chamar de crônica; talvez tenha lido e não se importado muito. Eu sei que eu, dificilmente, segurarei o choro quando vir novamente o banco do quarteirão da praia vazio, sem o John a levar felicidade a quem precisa, e estando sabe Deus onde... Pode ser que eu seja mesmo um irresponsável, um relaxado, um desambicioso, mas essa história, esse momento é, para mim, muito mais importante do que o IPTU nosso de cada mês...Eu não posso acolher o John, porque moro de favor e a casa já tem um cachorro. Talvez eu devesse mesmo é estar no lugar do Gilson. Talvez todos nós devêssemos, pelo menos uma vez na vida, estarmos no lugar do Gilson, tanto pelo amor de um John, como pelo reequilíbrio do nosso sistema de "valores".
Quem você abraçou hoje?

sexta-feira, 19 de março de 2010

Semana Inglesa (pra inglês ver...)

Vocês já perceberam que os nossos finais de semana, que já começavam às sextas-feiras, estão começando a começar (liberdade poética, obrigado e volte sempre) às quintas-feiras? Tenho percebido, isto é, tem-me sido relatado mais do que por mim testemunhado, já que, como vocês sabem, sou o "meu querido sociopata" de um sitcom qualquer, que as nights, ou os happy hours, ou as baladas, ou seja lá como se chamem hoje esses desestresses sociais mais ritualizados do que espontâneos - sociologias amadoras e opinativas à parte - estão muito mais na "modinha" do que a pausa proletária natural e ancestral da semana inglesa, entre sexta e sábado. Não sei se isso é bom ou mal e, pra falar a verdade, acho que, nesse país, principalmente nessa cidade, não sei mais se cabe isso de bom e mal. Já me rendi à formatação cultural carioca, isto é, me rendi no sentido de aceitar que existe uma mentalidade carioca subjacente à brasilidade nossa de cada novela das 9h. Se há a semana inglesa, e que se lhe agreguem todas as implicações político-culturais, econômicas e sociais (a rima é por conta da casa), muito bem, houve que haver (isto está numa poiesis só hoje, não? Aliás, eu aqui me pergunto se estou enquadrado em algum crime gramatical conjugando e redobrando lexical e semanticamente a expressão "há de existir"...) um começo, um padrão, uma matriz qualquer para uma organização trabalhista dentro do capitalismo pós-revolução industrial. Não estou defendendo nada, foi assim que foi, paciência. Pegue sua DeLorean e resolva seus conflitos e recalques comunistas se os tiver. Na dúvida, pratiquemos todos um socialismo positivo... Enfim, antes que me perca como sempre, estava na semana inglesa. Pois bem, isso já faz mais de duzentos anos. Hoje conseguimos, ainda que sob a batuta de uma globalização esquizofrênica e neurótica, que tenta a todo custo uma pasteurização cultural planetária - embora eu ache que uma homogeneização das diversidades culturais do planeta seja mesmo uma tendência inevitável, mas que não deveria ser forçada ou apressada, ou será que não estamos forçando nem apressando nada? - diferenciações e autonomias regionais, culturais, pessoais e nacionais (ou seriam alienações e resistências regionais, culturais, pessoais e nacionais?) que nos permitem, dentro de toda essa globalização, sermos ainda diferente? Se for esse o caso, então estamos legitimando - não que as instituições precisem do nosso aval para suas legitimações, porque certas instituições são supraestruturais, quando não arquetípicas ou ontológicas - certas "necessidades" coletivas mundiais, como a tal semana inglesa, cujos finais de semana de dois dias servem a vários fins mais ou menos semelhantes aqui e ali, como o fechamento e a abertura das bolsas de valores de todo o mundo... No entanto, o brasileiro, especialmente o carioca, tanto para o mal quanto para o bem - vou insistir nisso um pouco enquanto não desaparecem de vez -, nunca foi muito globalizado mesmo. Somos egoístas endógenos mas também exógenos. Há anos luta-se contra péssimos hábitos, condutas sociais reprováveis, espírito nacionalista e civil porco e hipócrita, enfim, contra uma "malandragem" a que nos apegamos como referência genétco-cultural e já vivemo-la (in)conscientemente. É por isso que às vezes penso que não cabe mais a crítica ou a crônica que pretende questionar ou colocar o ser carioca. Será que chega mesmo a ser uma falta de respeito com essa carioquice vigente? É como se todo dia um chinês enchesse o saco dos outros chineses por meio de um blog obscuro criticando ser o cachorro um dos pratos prediletos na China. Certo, tenho o direito de não gostar e, principalmente, de não compartilhar, mas, se essa é a matriz cultural deles, então... Analogamente, não sou a favor de se urinar nas ruas, de se furar filas, de sujar as praias, de passar no sinal vermelho, de dirigir depois de beber; critico e não pratico e ainda reclamo mesmo na hora em que vejo uma barbaridade dessas, mas... E se os cariocas forem assim mesmo? E se não tiver mais jeito? Meus filhos, se eu os tivesse, seriam educados no sentido totalmente oposto dessa "carioquice" que "intelectuais" imbecis e artistas sem personalidade cantam em verso e prosa por aí, mas, até que ponto isso seria nadar contra a corrente? Seria o caso de nós, incomodados, que nos mudemos? Assim é com a "semana carioca" que estou vendo nascer por aí. É, parece-me, um movimento social, uma revolução/inovação cultural típica e espontânea dentro da nossa 'carioquice". Há muito tempo que as sextas-feiras já deixaram de ser, em certos aspectos, dias úteis, então, por que não se institucionalizar o fim de semana de três dias seguido de quatro dias úteis apenas? Como eu disse, ainda não tenho opinião formada sobre isso, talvez seja uma manifestação cultural totalmente digna a que se deva respeitar enquanto fenômeno sociológico ou antropológico. É possível até que a menor carga de dias úteis force uma reengenharia do sistema atual de horas de emprego semanais, inaugurando um esquema de rodízio ou jornadas menores, gerando mais lazer e mais postos de trabalho. Às custas de um salário menor? Ora, discutamos as condições dignas para essa concretização! As sociedades mudam; nem tanto, mas mudam ou, pelo menos, vão-se readequando às suas próprias necessidades. Que venha a semana carioca - que já parece mais do que embrionária -? Talvez, se pudermos e conseguirmos dialogar em torno de todos os seus aspectos positivos e negativos.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O que é o que é?

Copacabana é uma ficção científica. É terra onde tudo pode acontecer. Mas tudo mesmo! Se Hollywood fosse no Brasil, Copacabana seria Nova York: da guerrilha urbana ao fim do mundo, de monstros a caçadores de fantasmas, de comédias românticas a dramas de época, tudo acontece em Copacabana. Parada Disney, Rolling Stones, Dezoito do Forte, Orgulho Gay, Reveillón, Claudia Leite, Vôlei de Praia, Futebol de Praia, ressaca, gravação de novela... Logo logo a Avenida Atlântica vira Sambódromo. Tá rindo? Espeeeeeeeeeeeeeeeeeeera! Na verdade, não sei o que estou fazendo aqui, escrevendo crônicas mais ou menos, que não estou com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça Copacabana afora. Ah, lembrei, o medo de perdê-la num assalto... Mas, enquanto não posso sair com minha filmadora pela rua - a filmadora é retórica, ainda não tenho uma -, saio com a minha máquina fotográfica digital por aí clicando o material para as minhas crônicas. E o que foi que a minha câmera flagrou essa semana? Pois é, não sei. Nem faço idéia. Saí do ônibus na Avenida Atlântica quando vi o que vocês podem ver nas fotos abaixo. Minha primeira reação foi: está voltando o Tivoli Park. Aliás, um apelo: quem tiver tido a sorte de ter ido ao Tivoli Park da Lagoa aqui no Rio nas décadas de 70 e 80 e tiver fotos, por favor, postem-nas! Há uma carência muito grande desse material na internet, e o que tem de quarentão com saudades desse tempo não é brincadeira. Pra quem não teve essa sorte, o Tivoli Park era um parque de diversões desses comuns, com trem-fantasma, roda gigante, bicho-da-seda (não faço idéia de como isso se chame no seu estado ou na sua cidade, mas é aquela minhoca que roda absurdamente rápido num sobe e desce centrífugo que joga a gente pra fora. Tá, nunca ninguém foi atirado pra fora...), carrinhos bate-bate, carrossel e Konga, a Mulher-Gorila. Não é possível que você não conheça Konga, a Mulher-Gorila!!! Eu nunca fui nesse brinquedo porque era proibido para menores de dezoito anos, e não se tratava de nenhuma zoofilia. Era um quiosque no meio do parque, uma casa fechada, em que, de hora em hora, tinha o show da Konga. Pois bem, o show era transmitido pelos altos-falantes do parque com, digamos, muito entusiasmo do locutor. Quem não podia entrar, como eu, só podia deixar a imaginação voar, como vocês, que não conheceram a moça, farão agora. O show, segundo o que eu ouvia, começava com uma linda mulher loira dançando de biquini numa jaula. O locutor aumentava os predicativos da menina muito sedutoramente: vejam como Konga é linda, como ela dança bem e blablabla. De repente, o locutor mudava o tom de voz, parecia preocupado e narrava: Konga começa a sua transformação. Vejam os pelos crescendo em seu corpo. A linda mulher loira começa a se tranformar numa fera. E por aí vai. Ao mesmo tempo, a gente ouvia barulhos de correntes e umas pancadas na jaula. Lá pelas tantas, o locutor parecia aflito: calma, Konga, calma! Konga está ficando nervosa, por favor, afastem-se da grade, calma Konga, Konga, Konga!!!, Ela se soltou!!! Não, Konga, não!!! Bem, nesse finalzinho o cara já estava aos gritos e, pasmem - isso eu já vi muitas vezes de cima, da roda gigante -, as pessoas saíam correndo do quiosque da Konga!!! Mas correndo mesmo!!! É difícil imaginar que tecnologia poderosíssima é essa dos anos 70, principalmente comparada aos dias de hoje, capaz de enganar um monte de adultos com uma tranqueira dessas, mas, o fato é que o povo saía correndo e que eu ainda preciso resolver isso com o analista: eu nunca vi a Konga!!! Mas, passada a nostalgia, voltemos à praia de Copacabana. Já deram uma olhada nas fotos? Se isso não é um brinquedo de parque de diversões, é o começo de uma invasão alienígena patrocinada pela prefeitura do Rio. Também pensei num protótipo anti-enchente que estaria sendo testado pela prefeitura, afinal, pra uma cidade que tem Guarda Municipal motorizada, o que é uma grua anti-enchente? Ou um Transformer! A hipótese mais provável é um dispositivo anti-flanelinha para a proteção de policiais militares. Em Copacabana, como se sabe, há um ninho de flanelinhas que nenhum prefeito até hoje conseguiu erradicar. Com o passar do tempo, eles têm ameaçado não só os civis, mas também os policiais. No caso de uma Revolução da Flanela, os líderes da resistência policial estarão a salvo, nas alturas. Pode ser também que isso seja a mais nova modalidade de pardal eletrônico: ali no alto ele fica a salvo de vândalos e delinquentes (mas não dou um mês pra ter uma pichação ali: Copacabana tem pichadores-aranha!). Interessante é que a cabine tem insulfilm: PM tunada! Quem sabe é a mais nova atração turística de Copacabana? Daqui a pouco tem um cartaz ali: "Beach sight, beautiful women, great landscape". De noite o cartaz muda para "Bitches sight, shemales, thieves scape". Pobre Princesinha do Mar...

"Flash" — Juvenal, eu acho que você foi multado. — Que multado o quê?! Cadê o pardal?!


O Choque de Ordem da Prefeitura do Rio de Janeiro continua. Dessa vez a moralização é com a prostituição na praia de Copacabana. A prefeitura disponibilizou cabines rotativas para os turistas fazerem seus programas com os travestis locais com todo o conforto e segurança, incluindo uma vista aérea da praia.


— E.T. phone, home...


Prévia de Transformers III

sábado, 20 de fevereiro de 2010

São Carlos do Pão

Havia há muito, muito pouco tempo, um velho homem chamado Carlos. Carlos morava sozinho: não se casara e não constituíra família, tendo perdido já seus parentes todos mais próximos, se é que se podia dizer que Carlos tinha parentes... próximos. Talvez porque tivesse sido professor de filosofia, talvez porque tivesse ousado ver além, talvez até mesmo por ter uma alma de artista, Carlos havia sido tomado por um desgosto incomensurável pelo mundo e pelo ser humano. Mas não levem Carlos a mal assim tão rápido. O professor de filosofia era uma pessoa com um coração de ouro! Muitas pessoas gostavam dele; se não se aproximavam mais é por que o próprio Carlos não deixava, e não fazia isso com nenhuma rudeza ou grosseria. Muito pelo contrário, Carlos era, como diriam muitas amigas, vizinhas e flertes não correspondidos, um doce, ou, como diziam muitos amigos, um cara muito maneiro, um irmão. De fato, Carlos era mesmo incapaz de maltratar alguém gratuitamente, sempre tinha uma palavra amiga - quando falava -, estava sempre pronto a ajudar quem quer que fosse. Tinha lá seus desafetos, é verdade: professores de filosofia amargurados e de bom coração são, antes de qualquer coisa, seres humanos. Mas Carlos nunca se indispôs com seus desafetos, à exceção de raríssimas vezes. Para Carlos, ao tornar-se um desafeto, a pessoa simplesmente era apagada de sua memória, mandada para um limbo que só ele conhecia, para nunca mais ser lembrada. "Risquei-a de minha vida", dizia. Muito se julgou erradamente Carlos. Para muitos, ele foi alguém incapaz de perdoar, alguém que se consumiu num rancor e numa amargura profundas. Mas isso não era verdade. Carlos perdoava, mas depois formava sua opinião própria sobre coisas e pessoas e pronto, afastava-se. E era tudo. Carlos não gostava de crianças, achava-as barulhentas, mas não maltratava nenhuma. Pelo contrário, as crianças sempre gostaram do Tio Carlos. Era toda aquela atmosfera de amor familiar, de uma simulação de felicidade institucionalizada, de uma superficialidade milimetricamente esperada que o incomodava. Talvez porque Carlos fosse um professor de filosofia e tenha se deixado levar por muitas abstrações e muito conhecimento sobre a alma humana. Ou talvez pudesse ter sido qualquer outra coisa que morrera com ele e que jamais venhamos a saber. O fato é que Carlos era um bom homem, mas um homem amargurado e triste com o estado do mundo e com as pessoas. Mas não com os bichos. Principalmente cachorros. Depois que se viu sozinho no mundo, adotou um cachorro - viram como Carlos é mesmo um homem bom? Os dois se fizeram companhia durante dezesseis anos maravilhosos. Carlos sorria e era feliz. Ou pelo menos não era mais triste, ou tão triste. Até que seu cachorro morreu. Não importa muito de que raça era o cachorro de Seu Carlos, ou o seu nome, esses dados não passaram à tradição oral, o que importa é a hagiografia em si. Depois da morte do cachorro de Seu Carlos, o pobre professor de filosofia abandonou de vez o mundo. Continuava sendo simpático - pois sempre achou que ninguém merecia sua amargura apenas por ser a causa dela -, conversava de vez em quando com as pessoas, enfim, dava-se pelo essencial, pelo rotineiro do dia a dia que lhe sacrificava tanto. Eu disse conversava? Seu Carlos respondia mais a comentários triviais do que, àquela altura da vida, entrava em diálogos. Não gostava mesmo das pessoas, mas não nenhuma em particular, não gostava do gênero, da espécie. Afastava-se como podia, mas não recusava um cumprimento e nunca foi descortês: meia-dúzia de pãezinhos, por favor. Obrigado. Com licença, por favor. Não há de quê! Esse era Seu Carlos. Assim era Seu Carlos. Mas, o tempo continuou a passar e o professor de filosofia foi envelhecendo, e a velhice, como se sabe, em maior ou menor grau, nos torna naturalmente amargos, "mais conscientes", como diria Seu Carlos. E assim foi com o professor. Não se transformara num velho emburrado e resmungão, apenas numa figura triste, cansada, infeliz... Tudo mudou num dia em que foi à padaria um pouco mais cedo. Naquela manhã, um menino de rua estava sentado na soleira do estabelecimento com um ar derrotado, cansado, resoluto. Seu Carlos parou e olhou bem para o menino: magro, cheio de machucados e cicatrizes pelo corpo, coberto de trapos, cabeça entre os braços e cotovelos apoiados nos joelhos. Naquele instante, naquele infinitesimal instante, Seu Carlos imaginou que era o próprio rapaz, só que mais velho, mas também imaginou que o menino era ele próprio, só que mais novo. O que os unia era o cansaço da vida, o desapontamento com o mundo, a derrota para o dia a dia das grandes cidades. O que você tem, menino? Nada não, tio. Tem certeza? Quer alguma coisa? Tá com fome? Com fome eu , tio. Então espere aí um instante. Seu Carlos entrou na padaria, jogou meio dedo de prosa fora com Seu Manuel, o melhor amigo dele em todo o mundo, ou só por fazerem parte de uma simbiose. Não, eram mesmo amigos. Meia-dúzia de pãezinhos todo dia durante uma vida inteira não pode ser só uma simbiose social. Pode? Não, Seu Carlos não era assim. Sabia ser assim, é verdade. Foi assim, é verdade. Mas hoje, não mais. Que há com aquele menino ali, Manoel? Apareceu aí de madrugada quando vim abrir a padaria. Parece que apanhou de uma molecada aí por causa de dinheiro, não sei. Sabe como são essas coisas, Seu Carlos, esse mundo em que a gente vive. Mas está lá, quieto. Não incomodou ninguém pedindo dinheiro nem veio aqui pedir nada. Só está sentado lá. Tá triste, o bichinho, coitado. Tenho pena, viu, Seu Carlos, mas o que se há de fazer? Seu Carlos ouvia Seu Manoel e pensava com sua cabeça de filósofo amargo e desapontado com a vida. Ó Manoel, me faça aí um sanduíche de mortadela e me veja também um pingado. Mas o senhor já pode comer isso, Seu Carlos? E quem espera a morte tem luxos de não comer isso ou aquilo, Manoel. Pro diabo! Só me resta agora é morrer pelo menos de barriga cheia. Quem sabe morro até feliz? Ora pois, muito bem, vá lá. Mas não me vá morrer na padaria, pois não? Faz favor! E logo o balconista trouxe o pedido de Seu Carlos que, pegando-o, sentou-se na soleira da padaria ao lado do menino de rua. Ofereceu-lhe o sanduíche e o pingado e nada mais. Não trocaram uma só palavra. Não foi preciso. O que era preciso já havia sido feito. Naquele dia Seu Carlos não consegui dormir pensando nas misérias do mundo que tanto lhe fizeram mal e que tanto lhe tornaram o mundo cinza e insensível. Havia alguma coisa, um sentimento novo dentro do peito angustiado do professor de filosofia, algo diferente de tudo o que ele havia sentido durante todos aqueles anos. Seu Carlos se deu conta de que podia fazer alguma coisa pelas pessoas; entendeu que ele fazia parte do mundo pelo qual sentia um grande desgosto e que podia, ele mesmo, fazer alguma coisa para mudar. E fez. Seu Carlos comprava sanduíches de mortadela, às vezes queijo, outras vezes presunto e pingados nos finais de semana e saía pela rua dando a quem passava fome na rua. Seu Manoel no começo ficou preocupado com o amigo: só faltava essa ao pobre diabo, ficar insolvente. Mas, aos poucos, foi se acostumando e entendendo o que Seu Carlos fazia. Com o tempo, também o Seu Manoel começou a ajudar Seu Carlos na distribuição de sanduíches simples e pingados aos miseráveis do bairro. E faziam sem nenhum alarde, sem nenhuma promoção, sem nenhuma comparação a quem fazia mais ou quem fazia menos, nada. Apenas faziam. Depois de um ano, Seu Carlos gastava toda a sua aposentadoria nisso e com as contas de casa, e nada mais. É por isso, meu filho, que Seu Carlos parece estar sorrindo no caixão, porque ele morreu feliz.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Bucólica contemplação: uma tempestade zen

Nesta terça-feira o Rio foi chamuscado por uma tempestade elétrica. Zeus, pra variar, ficou bêbado, arrumou uma mortal qualquer, engravidou a menina e perdeu o rumo de casa. Com raiva dele mesmo - e num ato de compensação pela castração (quase ao pé da letra) que sua esposa, Hera, representa na sua vida - começou a atirar raios pra tudo quanto é lado achando que estava no Olimpo. Muito macho!... Qual o quê! O pobre deus estava é cambaleando na estação do Pão-de-Açúcar mesmo... Agora não só Deus: Zeus também é brasileiro (como se precisássemos de mais essa...).
Quando aquele ventinho característico de chuva começou a assobiar desafinado pelas frestas das esquadrias de alumínio aqui de casa, imaginei logo uma daquelas chuvas de verão que não fazem mais do que deixar tudo mais quente, como na Amazônia, só que com menos piranhas. Ou não? Agora que a Help fechou e vai ser demolida, é possível... Sociologias baratas à parte, a tal brisa amazonense não me tirou da frente do computador: estou com prazos de trabalhos já estourados, algumas propostas de ghost-writing e uma tese de doutorado com cesariana marcada. Contudo, a brisa não veio sozinha. Depois de algumas portas e janelas batidas, começaram a cair (você sabia que na verdade os raios sobem?!) os raios e a ribombar as trovoadas. Até aí, nenhuma novidade: no verão carioca isso não é novidade - tirando o porre de Zeus no Pão-de-Açúcar. O que desviou a minha atenção do monitor e me fez digitar "pajé com dor no papo" ao invés de "licor de jenipapo" foi a intensidade e a quantidade de raios que caíam (subiam!) na cidade. Eu não sei se eu estou ficando velho e nostálgico, ou se realmente nasci no lugar e no tempo errados, ou simplesmente sou uma alma monacal por natureza, mas senti um impulso muito grande de parar o que eu estava fazendo e ir até a varanda observar a tempestade. E valeu a pena. Por alguns instantes éramos apenas eu, os raios, a chuva e o som das trovoadas. Por alguns minutos eu consegui um distanciamento de todos os pequenos problemas e afazeres do dia a dia e pude deixar a mente e a alma abertas. Não tinha pretensão nenhuma com essa interação desinteressada com a natureza, nem sabia que haveria interação. Como eu tenho, ultimamente, me voltado para as coisas simples da vida e deixado o mundo falar comigo sem ser pelas páginas dos jornais, deixei o trabalho de lado um pouco. A brisa trouxe uma temperatura bastante mais amena, enquanto os raios e os trovões conversavam com a minha alma de um jeito que só eles sabem. Tudo que pude deduzir da conversa foi um frêmito ancestral a cada clarão e ribombada, algo como o chamado da natureza, um reencontro do animal que sou com a natureza de onde vim e onde vivo. Naquele momento, o mundo e o homem tecnológicos, virtuais, meio e força de trabalho, instâncias sociais estavam mortos. Não havia contas a pagar, salários a receber, prazos a cumprir, trabalhos a entregar, remédios a tomar, nada! Todos nós deveríamos fazer isso de vez em quando. Que sejam só alguns segundos a olhar pela janela e sentir esse medo arquetípico da fúria da natureza fazer-nos lembrar de quem e o do que somos realmente. Passou a tempestade, foi-se o vento, calaram-se os trovões, apagaram-se os raios (Zeus já devia ter acabado de vomitar a cerveja quente de um pé-sujo qualquer da Lapa) e eu também retornei à calmaria monótona do mundo real, dessa estrutura que nos isola da vida lá fora, ainda que nos tenha dado outra "vida lá fora". Filosofia de Matrix.
Conhecem "Epitáfio", dos Titãs? Vivam-no de vez em quando, mas não se limitem à música: é extrapolá-la a sua verdadeira mensagem, porque a vida passa muito rápido, como um raio...