Saltei do ônibus de manhã na praia de Copacabana. Era cedo, havia pouca gente no calçadão bem como na praia. Manhã preguiçosa de março, fim de verão, um calor esquento-não-esquento, meio chovo-não-molho, luz laranja à farta para fotógrafos e seus nasceres de sol (não sei se existe isso, mas não ficou ruim...). Incrível como, dependendo do horário, há cidades que não se reconhecem nelas mesmas em outros momentos do dia. Se aquilo era a praia de Copacabana do trânsito intenso, das prostitutas noturnas, as famosas e desusadas mariposas, dos quase extintos pequineses, dos corredores, da guarda municipal motorizada, dos turistas, dos milhões de turistas, então não sei mais quantas Copacabanas há, nem em qual estava. Atravessei as pistas vazias e, já do outro lado, vi o que me fez não me importar mais com que Copacabana eu poderia estar. Na verdade, não me importei com mais nada naquele dia e acho que não pretendo mais me importar com muita coisa... Um mendigo conhecido aqui do quarteirão - também há a Copacabana dos mendigos, só deles - brincava com o seu cachorro, também conhecidíssimo na vizinhança. O nome do mendigo? Não sei, talvez seja Gilson, já ouvi algo assim. O do cachorro? John! E por que eu me lembro mais do nome do cachorro que o do mendigo? Não sei, ou sei e não me orgulho nem um pouco disso... O fato é que o Gilson - vamos chamá-lo de Gilson mas sem desmerecimento ou desimportância com o nome da pessoa, pelo contrário!, o homem tem nome, não se chama mendigo - estava brincando com John. Chamava o cachorro pra subir no banco e abraçava-o. Depois, como se estivesse treinando o bicho, batia no peito e o John ali se apoiava com as patas dianteiras e recebia um carinho sincero e um sentimento poucas vezes visto, em mendigos ou gente rica. Em gente, em geral... Parei para ver a cena, mas parei de longe, não queria atrapalhar. Não tinha o direito de atrapalhar um momento de espontaneidade que já não se vê pela cidade há algum tempo. Lembrei-me de Carlitos. Engraçado como a cultura geral, que alguns vão chamar de erudita, serviu apenas como uma referência leve, singela, da própria vida. É, existem Carlitos... E lá estava o vagabundo e seu vira-latas, de coleira! e de nome chique numa alegria que, com a maior das sinceridades, não é conversa de cronista metido a prosador poético, eu acho que nunca vi. Mesmo! Ou, se vi, vi tão poucas vezes que o resto dos anos e do mundo fez o favor de estraçalhar. Naquele momento questionei muito muitas coisas, e não consegui fugir do senso filosófico comum dessas horas: então, a felicidade é isso? Ora, ter um teto, roupas, comida três vezes ao dia, um salário e uma família não é também a felicidade? Ou é uma ilusão de felicidade? Reconheço: podemos ter o mesmo amor de um cachorro em nosso apartamento ou em nossa casa de praia em Angra, é verdade. Mas será que conseguiríamos ter esse mesmo amor se não estivéssemos escorados pelo teto, pelo salário no fim do mês, pela casa de praia em Angra e pelo seguro do carro? Que felicidade é essa, Seu Gilson? Me explica, por favor! Que felicidade é essa, tão autêntica, tão simples, tão plena de abraçar um vira-latas sem ter o que comer nem onde dormir nem o que vestir nem em que trabalhar nem ter saúde ?!!! Eu aqui, hipertenso, tenso com meu doutorado em literatura comparada, com minha síndrome metabólica indo e vindo e você aí, Seu Gilson, sorrindo sinceramente por poder abraçar um cachorro e receber o seu amor desinteressado! Como é que se faz isso? Só pode ser a bebida, Seu Gilson, só pode ser afastado da consciência da própria realidade que lhe assalta essa tal felicidade. Sem dignidade, sem um teto, sem um banheiro... Vocês, nós, já se imaginaram sem um banheiro? E sem água? E sem geladeira? E sem cama?! E Seu Gilson lá, sorrindo, alegre, feliz; e com ele, igualmente feliz, John, um vira-latas de coleira, dono e nome, comendo do bom e do melhor, oferecido pela vizinhança. Já Seu Gilson, que sofre com o pecado original de ser apenas gente, que se vire pra arranjar comida. "Todo mundo traz comida pro John, ninguém traz pra mim", já se ouviu ele falar por aí. À noite, os dois dormem juntos, quase abraçados, um velando pelo outro. Amor fraterno é isso. Amor, em uma de suas formas mais elevadas, é isso. E nós preocupados com nossas contas e com o preço da gasolina e com a fofoca dos vizinhos e com a nota no colégio e com o título de doutor e com os remédios mas não com o pôr-do-sol. Olhai os lírios do vale? Franciscanismo? Irresponsabilidade? Preguiça? Quem liga? Assim é se lhe parece. Para o John, significa apenas felicidade.
Hoje fiquei sabendo que o Gilson está preocupado: o Choque de Ordem da prefeitura já mandou avisar que vai tirar os mendigos de Copacabana e, pra onde eles vão, o John não pode ir... Gilson vem pedindo aos moradores mais próximos ajuda, não em dinheiro, não em comida, nem sequer para ele!, mas para que alguém acolha o John. Se um vai sobreviver sem o outro, não sei, talvez não, mas Copacabana, segundo a prefeitura, precisa passar pela maquiagem social. Talvez você não tenha lido esse texto que tenho a petulância de chamar de crônica; talvez tenha lido e não se importado muito. Eu sei que eu, dificilmente, segurarei o choro quando vir novamente o banco do quarteirão da praia vazio, sem o John a levar felicidade a quem precisa, e estando sabe Deus onde... Pode ser que eu seja mesmo um irresponsável, um relaxado, um desambicioso, mas essa história, esse momento é, para mim, muito mais importante do que o IPTU nosso de cada mês...Eu não posso acolher o John, porque moro de favor e a casa já tem um cachorro. Talvez eu devesse mesmo é estar no lugar do Gilson. Talvez todos nós devêssemos, pelo menos uma vez na vida, estarmos no lugar do Gilson, tanto pelo amor de um John, como pelo reequilíbrio do nosso sistema de "valores".
Quem você abraçou hoje?
Hoje fiquei sabendo que o Gilson está preocupado: o Choque de Ordem da prefeitura já mandou avisar que vai tirar os mendigos de Copacabana e, pra onde eles vão, o John não pode ir... Gilson vem pedindo aos moradores mais próximos ajuda, não em dinheiro, não em comida, nem sequer para ele!, mas para que alguém acolha o John. Se um vai sobreviver sem o outro, não sei, talvez não, mas Copacabana, segundo a prefeitura, precisa passar pela maquiagem social. Talvez você não tenha lido esse texto que tenho a petulância de chamar de crônica; talvez tenha lido e não se importado muito. Eu sei que eu, dificilmente, segurarei o choro quando vir novamente o banco do quarteirão da praia vazio, sem o John a levar felicidade a quem precisa, e estando sabe Deus onde... Pode ser que eu seja mesmo um irresponsável, um relaxado, um desambicioso, mas essa história, esse momento é, para mim, muito mais importante do que o IPTU nosso de cada mês...Eu não posso acolher o John, porque moro de favor e a casa já tem um cachorro. Talvez eu devesse mesmo é estar no lugar do Gilson. Talvez todos nós devêssemos, pelo menos uma vez na vida, estarmos no lugar do Gilson, tanto pelo amor de um John, como pelo reequilíbrio do nosso sistema de "valores".
Quem você abraçou hoje?








